
Construção Civil
PQO no PBQP-H: Como Estruturar o Plano da Qualidade da Obra e Evitar Não Conformidades
O PQO no PBQP-H é um documento obrigatório do SiAC que estrutura o planejamento, controle e execução da obra, garantindo alinhamento ao Sistema de Gestão da Qualidade. Quando bem elaborado e aplicado, torna-se ferramenta estratégica para prevenir não conformidades, reduzir retrabalho e fortalecer o desempenho em auditorias.
SiAC
PBQP-H
23 de Fevereiro de 2026
4 min de leitura
No setor da construção civil, a certificação no PBQP-H (Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat) exige mais do que procedimentos formais: exige gestão estruturada, planejamento técnico e controle efetivo da execução da obra.
Entre os requisitos mais estratégicos do SiAC está o PQO – Plano da Qualidade da Obra.
Embora muitas construtoras já estejam certificadas ou em processo de certificação, ainda observamos, durante auditorias, dúvidas recorrentes sobre a estruturação correta do PQO e sua aplicação prática no canteiro.
Neste artigo, explicamos de forma objetiva e técnica:
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O que é o PQO segundo o SiAC
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Como estruturar corretamente o documento
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Pontos críticos que geram não conformidades
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Boas práticas observadas em empresas maduras
O que é o PQO no PBQP-H?
O Plano da Qualidade da Obra (PQO) é um documento obrigatório previsto no SiAC, vinculado ao requisito 8.1.1.
Ele deve ser:
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Elaborado para cada obra
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Implementado e mantido como informação documentada, precisa ter revisão, data e segue uma estrutura
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Coerente com o Sistema de Gestão da Qualidade da empresa
Importante destacar: o PQO não é um documento genérico. Ele é específico para cada empreendimento e deve refletir as particularidades técnicas, operacionais e legais daquela obra.
Como Estruturar o PQO de Forma Correta
A seguir, detalhamos os principais elementos exigidos pelo SiAC e como abordá-los adequadamente.
1. Processos do SGQ aplicáveis à obra
O PQO deve identificar os processos do Sistema de Gestão aplicáveis ao empreendimento.
Boas práticas incluem:
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Inserir um macrofluxo da obra
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Relacionar processos como compras, suprimentos, controle tecnológico, RH, recebimento e armazenamento
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Ou indicar formalmente que os processos aplicáveis estão descritos ao longo do documento
Não é necessário complexidade excessiva — mas é essencial haver clareza e rastreabilidade.
2. Estrutura organizacional da obra
O PQO deve apresentar:
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Organograma específico da obra
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Definição de responsabilidades
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Autoridades e limites de atuação
Aqui reside uma oportunidade estratégica: cada obra pode ter particularidades quanto à competência e autonomia dos profissionais.
É comum, por exemplo, que em uma obra um estagiário tenha autonomia para liberar serviços, enquanto em outra não. O PQO é o instrumento adequado para formalizar essas diferenças.
3. Serviços Controlados (mínimo de 27 no Nível A)
O SiAC exige, no mínimo, 27 serviços controlados para empresas certificadas no Nível A.
O PQO deve:
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Listar os serviços aplicáveis à obra
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Indicar os respectivos procedimentos de execução
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Vincular os registros de inspeção (ex.: FVS)
Ponto importante: a empresa pode adaptar serviços conforme sua realidade técnica, desde que mantenha o quantitativo mínimo exigido.
4. Materiais Controlados
Ao contrário dos serviços, a norma não fornece uma lista pronta de materiais controlados, mas existe definição do número mínimo de materiais controlados.
A lógica é clara:
Material controlado é todo material utilizado em serviço controlado.
O PQO deve:
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Relacionar os materiais
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Definir critérios de recebimento
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Estabelecer condições de armazenamento
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Indicar registros aplicáveis
Empresas maduras mantêm tabelas objetivas que facilitam auditorias e reduzem riscos operacionais, auxiliam e padronizam a rotina das atividades nos canteiros de obras e e por consequência facilitam as auditorias.
5. Particularidades da Obra
Um dos pontos mais negligenciados — e que gera não conformidades — é a ausência de registro de particularidades.
Exemplo prático:
Se a instrução de trabalho prevê impermeabilização com manta asfáltica, mas a obra utilizar argamassa polimérica em áreas específicas, isso deve constar como particularidade no PQO.
Alterar a instrução de trabalho corporativa impactaria todas as obras. O PQO resolve isso localmente.
6. Plano de Controle Tecnológico (PCT)
O PCT deve:
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Estar vinculado ao Perfil de Desempenho da Edificação (PDE)
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Definir meios de controle
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Estabelecer responsáveis e prazos
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Ser mantido atualizado
Recomendamos que o PCT seja apresentado como anexo ao PQO, devido à sua complexidade técnica.
Em auditorias, a coerência entre PDE, PCT e execução prática é frequentemente verificada.
7. Equipamentos Críticos
O foco deve estar em equipamentos que impactam diretamente a qualidade e continuidade da obra, como:
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Betoneiras
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Guinchos
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Gruas
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Peneiras elétricas
Não há necessidade de incluir ferramentas simples cuja substituição é imediata.
O PQO deve prever:
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Plano de manutenção
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Frequência
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Responsável
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Tratativa para equipamentos locados
8. Programa de Treinamento da Obra
O treinamento deve ocorrer imediatamente antes da execução do serviço, conforme previsto no SiAC.
Erro comum:
Treinar todos os colaboradores no início da obra para todos os serviços.
A prática correta é vincular o treinamento ao cronograma físico da obra.
O PQO deve conter:
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Matriz de funções x treinamentos
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Procedimentos vinculados
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Forma de registro
9. Objetivos da Qualidade Específicos da Obra
O PQO deve apresentar objetivos próprios do empreendimento, distintos dos objetivos corporativos.
Exemplos:
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Índice de retrabalho
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Percentual de não conformidades internas
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Cumprimento de cronograma
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Indicadores de desperdício
Esses objetivos devem ser mensuráveis e monitorados.
10. Requisitos Legais e Ambientais
O PQO deve contemplar:
Resíduos Sólidos
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PGRCC conforme CONAMA 307
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Licença ambiental das empresas transportadoras e destinadoras
Resíduos Líquidos
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Conexão à rede pública ou sistema alternativo
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Frequência de manutenção (fossa, ETE etc.)
Segurança do Trabalho
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Comunicação prévia de obra
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PGR ou PCMAT
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PCMSO
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CIPA ou designado
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ASOs e exames complementares coerentes com riscos ocupacionais
11. Layout do Canteiro
O projeto atualizado do canteiro deve apresentar:
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Acessos
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Circulação de pessoas e equipamentos
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Áreas de armazenamento
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Centrais de produção
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Áreas de vivência
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Localização de equipamentos
Empresas com obras complexas frequentemente investem em planejamento logístico especializado.
Importante: ausência de planejamento é não conformidade. Ajustes ao longo da obra são naturais, desde que documentados.
Principais Não Conformidades Observadas em Auditorias
Ao longo de auditorias no setor, os problemas mais recorrentes incluem:
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PQO genérico, não específico da obra
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Ausência de particularidades documentadas
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Treinamentos realizados fora do momento adequado
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Serviços controlados sem vínculo claro com registros
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Equipamentos não críticos incluídos sem justificativa
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Falta de coerência entre PCT e execução
Conclusão
O PQO não deve ser tratado como um documento burocrático.
Ele é, na prática, um instrumento de:
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Planejamento técnico
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Controle operacional
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Mitigação de riscos
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Garantia de conformidade
Construtoras que utilizam o PQO estrategicamente apresentam:
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Menor índice de não conformidades
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Maior previsibilidade na execução
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Redução de retrabalho
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Melhor desempenho em auditorias
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A experiência em auditorias técnicas faz diferença — especialmente quando o objetivo é transformar conformidade em desempenho.
